sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Poço


Pablo Neruda
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.


Pablo Neruda



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz

Para todos os amigos (as) e visitantes do Ilhas do Mar2

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Miguel Torga, in 'Diário XV'


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Praia do Esquecimento



Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"


sábado, 17 de novembro de 2012

AUSÊNCIA





Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

                          Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

O vídeo de Marcelo recusado pela Alemanha

Recordação





Pertenci a vários corações
entre amores e desamores.
E, neles estou como lembrança
desses encontros e desencontros.
O meu, solitário e amargurado,
caminha  fraco e desamparado.
Procura com alguma esperança
serenidade. E, sem  clamores,
um recanto  e um reencontro,
que  abrigue sonhos e recordações.


 

sábado, 3 de novembro de 2012

Porta de reixa

                                                                               Tavira

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Na praia




Corremos na praia de mãos dadas,
construímos castelos de areia,
rimos, rebolamos, amamo-nos.
E, de exaustação adormecemos
enlaçados pela  maresia.

Acordei. O sonho terminara.
Na praia deserta, estava só!

 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Hoje



O negrume da tempestade dissipou.
Um sol muito tímido beijou a terra.
No céu cinzelado de brancos e azuis,
a tua imagem distante emergia.
Na onda, o murmurejo da tua voz.
O vento despenteava-me, despia-me, acariciava-me,
mãos saudosas, vagavam o meu corpo.
Dentro de mim um grito dilacerante.
Um amor impossível.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny, in "Pena Capital"


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Um banco de jardim para sentar com um amigo


Soneto do amigo



Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes

terça-feira, 23 de outubro de 2012