domingo, 7 de fevereiro de 2010

Agora Mesmo


Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

Manuel Alegre, in "Chegar Aqui"

5 comentários:

Maria disse...

Às vezes pergunto-me se o MA que escreve estes poemas é o mesmo que foi deputado na AR...
Tão intenso, este poema, e tão bonito...

Beijo, Ana

Maria Fernanda disse...

Pois... Lá esteve sem inspiração.

bjs

zecagomes disse...

Olá Fernanda !

É na realidade um talentoso poeta . Quanto à sua vida política não tem sido um exemplo de coerência...
Um beijo

Anónimo disse...

Isto só vem demonstrar a grande veia poetica deste Homem, porque na realidade, quer se queira ou não, ele é, mas somente, um grande poeta.
Por isso,apesar de fazer bem critica com a poesia, não pode ser um bom politico.

Jose Augusto Soares disse...

Obviamente, importa o autor.
Mas a grande verdade que o poema contém, é absolutamente inegável, e parece que nos esquecemos, amiúde, da cavalgada dos tempos, inexorável.

Belo poema de um enorme Poeta.
E cidadão exemplar.